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domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Outra


A Outra é aquela que eu não sou.
A Outra senta-se onde um dia eu me sentei, deita-se onde me deitei e é amada como eu fui. A Outra vive a vida que era para ser minha. A Outra é tudo aquilo que eu fui e que um dia quis ainda ser. E mesmo quando o deixei de querer, continua a ocupar um lugar que sinto que é meu, e não dela.
Durante muito tempo aguentei ressentida a presença da Outra. Nunca a odiei. Não porque esse sentimento esteja completamente afastado da pessoa que sou. Gostava de poder dizer isso, mas estaria a mentir. Mas porque a dor era tão grande que não deixava espaço para o ódio. Há dores assim. Consomem-nos tanto que aniquilam qualquer outra emoção, positiva ou negativa. Simplesmente, doía-me vê-la. Mais ainda, doía-me imaginá-la. Não invejava o sítio que ela ocupava, porque antes já eu lá tinha estado e bem sabia que não era, definitivamente, o meu sítio. Mas havia ali um sentimento de ter sido usurpada, espoliada, expropriada, enfim, qualquer outra forma verbal que exprima a excisão de uma parcela que pensamos, ainda que ilusoriamente, que nos completa e define. Sempre soube que não foi ela a responsável pelos meus males. Não fora ela a rejeitar-me, a magoar-me, a destruir o futuro que tinha já marcado no meu calendário de vida. Mas por algum motivo era tão mais fácil culpá-la a ela do que a ele, e foi isso que eu fiz.
Não que alguma vez tivesse desejado verdadeiramente trocar de lugar com a Outra. Nem quando andei perdida. Muito menos quando me encontrei. Mas o res(sentimento) pela Outra esteve sempre lá. Independentemente de quem ela fosse. A Outra foi loura, morena, mais alta, mais baixa… pouco importa. Não é o ADN que determina quem é a Outra. Tal como o Presidente da República não é uma pessoa mas um cargo, também ela não é uma mulher, mas uma posição.
Nunca deveria ter querido saber coisas acerca dela. Mas há uma parte de mim (de nós) que vibra com o desvendar de pormenores mórbidos. Todo e qualquer detalhe se tornou essencial: como penteava o cabelo, como usava os lenços, qual o timbre de voz. E assim fui guardando na memória vários mínimos pormenores das diversas Outras que se sucediam. No final só havia a Outra, um ente abstracto que me gastava os pensamentos.
Se a minha vida fosse um filme – indiano ou outro qualquer – provavelmente um dia far-lhe-ia uma espera, puxava-lhe os cabelos e, se o realizador fosse o Tarantino, era bem capaz de lhe passar por cima com as rodas do meu jipe. Mas como habitamos na vida real limitei-me a sonhar - ou melhor, a pesadelar – com ela e a seguir-lhe os passos com aquele olhar perdido que durante tanto tempo viveu na minha cara.
Como digo, nunca lhe quis mal. Todos os meus neurónios estão conscientes de que ela é tão culpada quanto eu neste drama de novela das 7. Menos culpada ainda. O silêncio da Outra neste enredo é o silêncio dos inocentes. Dito isto resta explicar porque me batia o coração com a sua passagem e me sentia morrer sempre que alguém a trazia à baila.
A Outra é aquela que eu não sou.
Mas não posso esquecer que também eu acabo por ser a Outra de alguém.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Epidural para dores de alma



Se eu tivesse agora mesmo uma dor lancinante no estômago, nos dentes, em qualquer parte do meu corpo físico, corria para a farmácia, comprava aspirina ou, em última instância, Clonix, e a maleita supostamente passava. Se assim não fosse, apanhava um táxi para o hospital e, ainda que em plena agonia, pedia uma intervenção cirúrgica, uma epidural, uma transfusão sanguínea, eu sei lá…
Paradoxalmente, ninguém inventou ainda nada para as dores de alma. O que afinal redunda também numa dor física, porque não há nada de mais corpóreo do que o coração, que nos bombeia sangue para que tudo o mais funcione. E a alma, para todos os efeitos, é a magia que faz o vermelhinho bater.
Para as tais dores de alma parece que só mesmo o tempo, esse médico infalível, consegue aliviar o sofrimento. Mas o Dr. Tempo demora demais. A ferida tarda tanto em sarar que por vezes infecta e temos que ser amputadas. Eu, por exemplo, já ando aqui pelo mundo sem um bocadinho que mim, que se perdeu algures num destes episódios de infecção aguda.
Seria de esperar que quando a doença se tornasse crónica perdêssemos alguma sensibilidade para a dor. Um pouco como sucede com os sapatos apertados: após horas a fio com os bichos a devorarem-nos os dedos dos pés deixamos de os sentir e somos apenas mulheres lindas com sapatos fantásticos. Mas não. Concluo que a alma – pelo menos a minha – segue um timing diferente dos pés. E por mais machucada que esteja nem por isso perde a sensibilidade (diria mesmo, hipersensibilidade) à dor. Já perguntei por aí se alguém conhece uma epidural para dores de alma, mas consta que a ciência ainda não se ocupou deste problema. Também procurei nas Páginas Amarelas por um curso Lamaze de preparação para a dor aguda, mas a busca foi infrutífera. Resta-me treinar em casa exercícios de respiração na fugaz ilusão de conseguir controlar as contracções de tristeza, mas confesso que os actos de inspirar e expirar são relativamente inúteis quando as lágrimas atacam convulsivamente.
Mas como há gente tão inteligente nesse mundo todo, quem sabe se algum crânio no MIT, ou um daqueles senhores indianos que agora inventam tudo, não se lembrará de criar um transplante de alma. Não que seja muito apelativo andar por aí com a alma de uma pessoa morta, quase um fantasma dentro de nós, mas caramba… não há-de ser muita a diferença face a quem anda com o rim ou com a córnea de um cadáver. E neste momento, em que até já xenotransplantes se fazem, estou até disposta a aceitar a alma de um porco ou de um gato. Na verdade pouco me interessa o animal, desde que tenha sido feliz em vida.
Também já ponderei a hipótese de recorrer a células estaminais para a alma. O nosso primeiro (senhor licenciado em engenharia) instituiu o banco público de células do cordão umbilical. Porque não me aventuro eu na criação de um banco de células de alma? Anúncio: “Procuram-se dadores felizes, que queiram fazer outra pessoa feliz mediante as suas células almares (assim as baptizei eu)”. Mas como por mais que salte, faça o pino e me vire ao contrário ainda não descobri como extrair uma dessas células almares, e porque quase desconfio que a alma não é feita de células mas de pozinhos de prelimpimpim, chego à conclusão que não será na ciência que encontrarei resposta para a minha doença.
Só me resta esperar que a febre intensa e a perda brutal de sangue não me matem a alma. Não saberia onde a sepultar nem como viver sem ela.