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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ESPÉCIE: HOMINAE SALTUS ALTUS


Nos primórdios dos tempos, quando os nossos antepassados apareceram na face da Terra, gatinhavam com as 4 patas. Paulatinamente, por motivos que ainda hoje escapam à ciência, começaram a usar apenas os membros posteriores para se equilibrar e desse modo chegámos ao Homo Erectus. Mas eis que passados muitos milhares de anos se aperceberam que apoiando apenas as pontas dos pés no chão ficavam com corpos mais esbeltos e assim apareceu a maior invenção do mundo, a seguir à roda e aos gelados: o salto alto. Parece que no inicio não era apanágio feminino. Mas, convenhamos, nessa altura os homens usavam perucas aos canudos e pó de arroz no rosto, o que não era particularmente abonatório da sua masculinidade (eu ainda acho que homem que é homem não usa coisas de meninas, excepto se for escocês, e aí está autorizado a andar de saia, desde que sem boxers por baixo).
Hoje reivindicámos para nós os saltos altos. Eu, particularmente, reivindiquei para mim a pertença a essa espécie curiosa que prefere arriscar-se a torcer um tornozelo a arrastar os calcanhares pelo chão. E todos os que me conhecem sabem desta minha…particularidade, vá lá. Por isso não escondi o espanto quanto ontem à noite uma amiga, com quem partilharei hoje jantar, me escreve no msn: “Ah, um pormenor, traz sapatos rasos porque te quero levar a um sítio e o caminho até lá não é fácil”. Silêncio. Nem toquei nas teclas. Mas ergui o sobrolho. “Ó miúda, saltos rasos??? Mas queres que eu vá comprar uns?”. Não me compreendam mal, eu tenho sapatos rasos, divididos em três grandes grupos: sapatilhas para o ginásio, havaianas para a praia e sabrinas, para o que der e vier. Aliás, durante o dia, e excepto o período laboral, a minha regra é ser rasa. Compreendo que uma medica não faça operações enfiada em botins de camurça ou em pumps de cabedal com saltos assassinos, mas compreendam vocês que eu não sinto confortável a assistir a reuniões sendo a mais baixinha da sala. Chego a ir trabalhar de sabrinas calçadas e os saltos altos na bolsa, ou bem enfiados na pasta do PC e, à boa maneira dos Estates, mudar-me na casa de banho ou no elevador. Mas… sair à noite??? A noite pede saltos altos. A única excepção é a queima das fitas de Coimbra (by the way… há outra?), porque o parque não perdoa e os saltos se enterram imediatamente na terra empapada em vómito. Mas, fora disso, quanto mais alto melhor.
Porquê? Porque eu sou pequenina e gosto de ver o está para lá da linha do horizonte. Porque as pernas ficam incomensuravelmente mais bonitas em cima de 10cm. E porque quando se tem um namorado alto e se usa sapato raso arriscamo-nos a parecer o Frankenstein e o Igor: ele um Frankenstein lindo de morrer e eu um Igor baixote a atarracado.
Por isso, aborrecem-me à vontade com tornozelos partidos, dores nos ossos, lentidão no andar, saltos presos nas calças. Se eu não critico quem anda de salto raso, porque me criticam a mim? Cada um empoleira-se onde lhe der na realíssima gana, desde que não ande por aí a pisar pessoas ou cocós de cão. E eu, fazendo jus à minha espécie, olho para o mundo do alto dos meus 10cm de salto.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

VENDE-SE AMOR EM CAIXAS DE SAPATOS

Um texto da Vera. Hoje nem poderia ser meu: não estou suficientemente acordada para tanto!


Num destes Domingos pachorrentos levei duas amigas ao cinema para ver “Confissões de um Shopaholic” (nota de rodapé: sim, sou fútil. E cada vez mais faço questão de o ser. Não tenho paciência para massacrar o Tico e o Teco com filmes pseudo-intelectuais depois de uma semana de trabalhos forçados). Saí da sala sensibilizada com os perigos da uma vida financeiramente libertina, velei pela boa saúde do meu crédito pessoal e aconselhei as minhas amigas a fazer o mesmo. Mas mal virei a esquina do shopping e vi o cartaz que anunciava promoções na sapataria comecei a correr que nem uma tresloucada e deixei as duas meninas ali paradas em pleno corredor, abismadas com a minha velocidade em cima de saltos altos. Resultado: umas fantásticas sandálias pretas, em pele, a amarar na perna, com 70% de desconto. Senti-me mal? Nem por isso… afinal, se as comprei em promoção acabei por cumprir os mandamentos que o filme me ensinou.
Há um par de semanas, quando me preparara para mais uma das minhas entediantes viagens em trabalho, cumpri o ritual de passar pelo Duty Free do aeroporto. E achei que a miséria que me esperava no destino (é bem sabido que até à data eu não era - sublinho, não ERA – germanófila) autorizei-me a mim própria a exceder o orçamento habitual das compras de viajante. Em boa verdade ia apenas atacar o sector dos cremes de rosto, único luxo que nem a senhora minha mãe me recrimina, porque, afinal, todas temos pavor em ficar velhinhas. Cremes para o pescoço e para os olhos são, em bom rigor, quase medicamentos. Salvam vidas pelo menos. Mas o maior infortúnio é que para chegar ao departamento dos cremes tive que passar pelo departamento da maquilhagem. Tive que passar. Bem…. Ter, ter, o que se diz “ter”… eu não tinha. Mas era uma das possibilidades. E se era possível passar pelo corredor da make up… pois, eu passei… Ninguém diga nada! Atire a primeira pedra aquele que nunca se entregou aos prazeres dos batons e dos blushs. Pois bem, descobri que o vermelho Channel é diferente de todos os outros vermelhos dos milhentos outros batons que existem no mundo, e que existe uma escova de rímel especialmente vocacionada para revirar as pontas, e que a ciência já produz correctores que camuflam olheiras com as quais poderíamos até tropeçar! Ora, depois de descobrir tantas maravilhas compreenderão que as não poderia ignorar e fui forçada a ceder aos benefícios da ciência
Quando a minha conta ultrapassava já o valor do orçamento integral que me tinham atribuído para a dita viagem ouvi subitamente uma voz: “Vera”. Primeiro baixinho, depois aos gritos: “VERA”. Acham que era a minha consciência? Não. Era antes um relogiozinho dourado da Guess, que me seduzia da sua pequena caixinha de vidro. Tive que lá ir. Quem não iria? Fui lá e mostrei-lhe quem mandava…. Ele, pois claro. Tive que o comprar. Eu, que tenho um daqueles irritantes pulsos fininhos onde relógios e pulseiras costumam dançar o mambo, ainda me alimentei da fugaz esperança que o dito caísse do braço e se estatelasse no chão, mas nem essa prece me foi atendida. É que afinal o bicho era composto por pequenas fracções que se desmontavam, de modo que bastou um ligeiro ajuste para me servir na perfeição, tal qual um relógio de cristal no pulso da Cinderela. Preparava-me para pagar quando a menina da caixa me perguntou pelo cartão de passageiro frequente, explicando-lhe que iria reportar o valor das compras à minha conta de milhas. Olhei-a, estupefacta (ou seja… estúpida) e respondi, no tom mais ofendido que me saiu: “Não posso crer! Há tantos anos a comprar coisas no Duty Free e a gastar milhares de euros e só hoje em avisam disso. Eu já poderia ter acumulado milhas e milhas com esse expediente! Como é nunca me informaram disso?”.
“Esta enganada minha senhora. Ainda da última vez que aqui esteve lhe disse isto”, respondeu-me ela. Silêncio. Uhhhhhhhhhhh!!!!! Quarta dimensão!!!!! Da última vez que lá tinha estado???? Mal ela… recordava-se de mim????
“Desculpe? “ – perguntei eu, com a maior cara de sonsa da História – “mas a senhora recorda-se de mim?”. “Claro que sim, vejo-a aqui muitas vezes a comprar coisas”. “Tem a certeza de que era eu?”, insisti, na tentativa de desarmar aquela vergonhosa mentira de eu ser uma compradora compulsiva. “Tenho” (resposta convicta).
E agora o meu momento de auge, o toque do verdadeiro artista: “Olhe que já me têm dito que anda por aí muita gente parecida comigo”. “Não minha senhora, recordo-me perfeitamente. Foi há cerca de três semanas e comprou um par de perfumes”.
Ui... o rumor bate certo com a realidade. Três, semanas, Cancun, o Gucci e o Coco Mademoiselle.
Cabisbaixa, humilhada, dilacerada, uma autêntica dama das Camélias a definhar sob o peso da tuberculose das compras, saquei do cartão de plástico, marquei o código e reflecti sobre os meus devaneios coquettes. O meu patético desespero só foi interrompido por uma voz que gritava o meu nome no altifalante do aeroporto, avisando-me de que aquele seria o último aviso para o embarque. Com a mochila do PC às costas, um saco de compras em cada mão e umas botas de cano alto de verniz, desato a correr pelos corredores do aeroporto. Lei de Murphy: a porta de embarque fica logo à entrada, excepto quando o avião está prestes a partir. Já aqui gabei o meu dom para correr em saltos altos, mas nunca é demais referir que se houvesse um campeonato mundial a medalha de ouro seria minha.
Já me imaginava a perder o avião, a ser chamada a dar explicações acerca desta falha imperdoável… “Sabe senhor Doutor, a culpa é do rouge da Channel…. e dos relógio dourados….”. Não me parece que esta resposta sensibilizasse alguma alma…
Moral da história: não pedi o avião, mas fui a última a embarcar, sob o olhar de censura dos restantes passageiros e do pessoal da TAP que, certamente, me condecorou nesse dia com a honra de persona non grata em matérias de voos.
Porque vos contos isto? Porque tenho passado os últimos anos a compensar as minhas desventuras amorosas e desgastes emocionais com compras, mais ou menos necessárias (diria “menos”), mais ou menos exorbitantes (diria “mais”). Será que ainda acredito que posso comprar o amor juntamente embrulhando em papel de seda, dentro de uma caixa de sapatos? Será que tops sem costas acabam por me tapar o frio nas noites de Inverno, há falta de quem me aqueça? Não nego que continuo compradora mesmo em tempos de maior estabilidade emocional. Está no meu ADN e contra a biologia não vale a pena lutar. Mas nesses momentos sou como aquele alcoólico que não vai para além do copo de vinho à refeição e da bebedeira semanal. Já em momentos de desgosto de amor vivo inebriada por sacos de compras.
O problema é que, à medida que o espaço da minha casa se torna pequeno para todas as aquisições, também a minha conta bancária diminui de dígitos. Sem que daqui derive algum paliativo emocional, alguma mais-valia para a pessoa que sou. Convenhamos: não há carteira de marca que funcione como penso para a alma. Mas enquanto o príncipe perfeito não chega sempre haverá por aí, algures, um parzinho de sapatos à espera do meu pezinho. E esses, pelo menos, nunca me trocaram por outro pé menos elegante que o meu.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Saltos Rasos

Eu vou a pé para o trabalho todos os dias. De Santa Clara até à Baixa. Entre 10 a 15 minutos a pé, portanto. E tenho que confessar o seguinte: vou sempre, mas sempre, de sapatilhas, sabrinas ou botas rasas!!! Nunca de saltos altos!
Isso dos saltos agulha de 7 centímetros fica reservado para jantares (de preferência, não nas Docas, porque houve um génio, homem com certeza, que inventou aqueles caminhos feitos com tábuas estrategicamente colocadas de forma a que nós deixássemos os sapatos presos nos intervalos a cada passo que damos) e saídas à noite.
E no entanto, tooooodos os dias de manhã vejo uma mulher, linda por sinal (como poderão comprovar todos os condutores que passam a dita ponte à mesma hora), a atravessar a Ponte de Santa Clara com uns saltos, não de 7, mas de 10 centímetros!!! Agulha! Como, mas como é que ela consegue??? Será que eu não nasci com os genes certos? Será que falhei alguma formação? Hum... Quando voltar a ver todos os exemplares do sexo masculino a virar a cara para acompanhar o andar bamboleante da dona tos referidos sapatos, vou agarrar-me à ideia de que tenho umas costas mais saudáveis do que ela! Humpft (dor de cotovelo é lixada)!