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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Desculpe, importa-se de repetir?


A história não é original.
Rapaz parte coração a rapariga. Rapariga bate com a cabeça nas paredes durante alguns meses, e no meio da perturbação decide que o único remédio é voltar a apaixonar-se. Mas aí está uma coisa mais fácil de dizer do que fazer. Porém, a força de vontade move montanhas e, pelos vistos, também corações. Um dia a rapariga encontra um rapaz amável e limpinho, e decide que será aquele a sua vítima. E tenta, tenta com todos os poros do seu corpo, criar ali uma paixão, alguma coisa a que se pudesse agarrar. Mas as comparações são inevitáveis, e quase sempre injustas. De modo que o rapaz estava a ser um paliativo, não a cura da doença de coração. Quando ela procurava as palavras apropriadas para virar as costas com alguma graciosidade ele facilita-lhe a vida. Mete o pé na argola de uma forma que ela não podia deixar passar. A rapariga suspira de alívio. Ao princípio. Depois, dá por ela a suspirar por ele. A ausência do rapaz é sentida como uma perda. Dias mais tarde o rapaz volta. Perde perdão. Chora baba e ranho. Implora. E a rapariga, cheia de medo de perder aquilo que lhe parecia a última oportunidade de se apaixonar, amolece. Mas antes mesmo de se consumar o acto de misericórdia afectiva ele falha de novo. Redondamente. Profundamente. Imperdoavelmente. E ela, que não é mulher dada a grandes gestos de clemência, desliga-lhe o telemóvel e bate-lhe a porta na cara. Não sentiu qualquer desgosto de amor… se calhar já nem está apta para sofrer mais nenhum, uma espécie de imunidade emocional que lhe adveio de uma dor crónica de coração. Pelo contrário, alivio. É que já é difícil partilhar a vida com alguém, mas é praticamente heróico partilhar quando não se gosta. E, de facto, aquela falta que tinha sentido num primeiro momento revela-se apenas a falta de uma presença abstracta e não de um “tu” particular. De modo que quando trancou a porta sentiu um peso sair-lhe de cima. Não apenas porque o “the end” chegou cedo (mas já tarde demais), mas também porque ficara evidente que ninguém se servira de ninguém. Ou melhor, tinha-se servido mutuamente um do outro. A rapariga porque queria uma companhia que lhe adoçasse o ego. O rapaz porque queria… o que queria, nem ela sabe. Tudo sem violação do princípio kantiano, porque, ao fim ao cabo, uma instrumentalização anula a outra.
A história é esta. Como bem avisei, nada de excepcional ou exótico. Gostava de ter outra coisa para contar, mas isto é o que tenho.
Porém, há aqui um desfecho extraordinário. É que passados meses de infrutíferos contactos por parte dele, decidi finalmente que poderíamos, e deveríamos, ser amigos. Não apenas porque partilhávamos agora a mesma cidade, mas também porque sentia falta do amigo que ele tinha sido um dia. E, convenhamos, a aproximação do espírito natalício deu um empurrãozinho. Marcámos um jantar. Eu estava ansiosa por retomar a nossa amizade no ponto em que a tínhamos parado. Mas para isso precisava de esclarecer uma série de mal-entendidos que poderiam aniquilar a nossa futura vida como “camaradas”. Durante um agradável jantarinho recordámos os bons tempos juntos. Queria, antes de mais, esclarecer algumas mágoas que poderiam ter ficado. Por conseguinte, rematei a conversa dizendo que acreditava que iríamos ser bons amigos, e que não podíamos deixar que um namoro de semanas se intrometesse no nosso companheirismo, até porque tinha sido uma coisa insignificante em termos de sentimentos, mais motivada pela mútua solidão do que por alguma outra coisa. “Afinal, nem sequer gostávamos particularmente um do outro”.
“Não, enganas-te. Eu estava perdidamente apaixonado por ti. “
Desculpe…importa-se de repetir?
Estás-me a dizer que gostava efectivamente de mim, que deitou tudo a perder porque sabia de deste lado havia um vazio, que sofreu com o fim? É isso que me estás a dizer?
Não sei se era isso. Posso garantir-vos que a foi uma noite maravilhosa, com um amigo que quase sinto como sendo de longa data, que me deixou à porta de casa e ficou ali a ver-me entrar antes de arrancar ruidosamente com o carro, que desde então não mais tive notícias dele, nem sequer uma resposta aos meus votos de feliz Natal, que não me atende telemóveis, e que o silêncio só foi quebrado por uma mensagem dizendo que estava de volta a um local que ambos tínhamos partilhado e que as recordações eram imensas. Deixo a cada um liberdade para divagar sobre o que ele terá querido dizer.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A importância de um segundo



As palavras, as acções, as omissões, tudo isso tem um tempo. Há um momento certo para cada coisa. Se chegarem demasiado cedo chegam fora do tempo. Se chagarem demasiado tarde chegam fora do tempo também.
Eu, que sou apressada devido à minha carga genética, peco sempre pela antecipação. Diga as coisas quando ninguém ainda as espera. Uso os sapatos quando ninguém nunca os viu. Corto o cabelo antes de alguém o ter sonhado assim. Vivo antes do tempo talvez. Como se o mundo ainda não estivesse preparado para mim. Eu, pelo menos, gosto de pensar que é assim. Mas talvez seja ao contrário, e admito até que seja eu a não estar preparada para o mundo. E decido tudo no tempo que tarda o bater de asas de uma borboleta. Sem indecisões. Sem meios-termos. Posso até dizer que mais dilemas me suscita comprar um casaco do que decidir a minha vida durante 20 anos.
Em contrapartida, os outros chegam sempre demasiado tarde para mim. Sobretudo as palavras. As palavras dos outros tocam nos meus ouvidos quando a cabeça e o coração já desistiram delas. É como se dissessem as coisas quando para mim deixaram de ser importantes. E por isso são apenas sons que ficam ali, no ar, a pairar. E que aborrecida eu fico por já não lhes poder dar sentido. A sério que as querias utilizar. Fazer delas poesia. Magia. Mas sou inepta no que toca ao aproveitamento daquilo que era mas já não é. Os resquícios do que podia ter sido.
Acontece-me muito com gestos e palavras. Porque eu sei imediatamente quando gosto de alguém. E não temo em dize-lo. Sabe-se lá quando é que vou cair fulminada no chão por um raio ou por um telhado, e parto daqui sem dizer às pessoas o importantes que foram para mim e o quanto gostei delas. O mesmo vale para quando não gosto. Há quem o guarde para si e o moa e remoa dentro das vísceras, sem nunca o contar a ninguém ou então partilhe aquela raiva passados anos, décadas mesmo. Eu não. Anatomicamente tenho a boca desmesuradamente grande e por isso sinto alguma dificuldade em prender as palavras dentro dela. Por vezes arrependo-me, confesso que sim. Tantas vezes disse o que não sentia de verdade, mas cuspi aquelas frases como se me queimassem a língua. E imediatamente depois desejava eu voltá-las a sentir a queimar. Demasiado tarde.
Dizem que o ponto óptimo é sempre o equilíbrio. Nem tarde nem cedo. No tempo certo. Mas eu também nunca garanti que era equilibrada. Por isso vivo neste anseio de ouvir aquilo que chega sempre demasiado tarde. E depois, quando finalmente chega, já não sei o que lhe hei-de fazer. E arrasto comigo, no um baú de recordações, a memória de todas essas palavras e sentimentos que empurrei lá o lixo das sensações e dos sentimentos. Se alguém em puder explicar como os poderia reciclar ficaria muito agradecida

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Alguém Sabe...

... como é que se aplica isto no coração???

terça-feira, 28 de julho de 2009

Cinco Segundos de Sinceridade

Sabem o que me deixa perdida? As pessoas que se desviam do registo conseguido com base na boa fé! Imaginem um homem e uma mulher que ao longo de uns meses (loooooongos meses) tentam começar uma relação de casal (o que não resulta), tentam ser amigos (o que também não resulta), tentam começar uma relação de casal (que mais uma vez não resulta) e por aí fora. Estão a ver um padrão?!?!? Então, depois de muito trabalho, limar de arestas e aperfeiçoamentos, chegam à conclusão que o que resulta entre os dois é: sexo! Sexo com direito a tudinho o que são acrobacias e fantasias! É um acordo honesto e que resulta para ambas as partes. Certo? Errado!!! Porque uma das partes lembra-se de atirar com uns "gosto de ti" e uns "estou sempre aqui" e outras pérolas que tais!!!
E aqui se coloca o problema acerca do qual escreve a Vera. O que esperam as pessoas? Que as outras não estejam a ouvir? Que não estejam a dar importância? Que se esqueçam? Que ajam sem processar a informação Eu até sou das pessoas que acredita mais na teoria de que o que é dito é-o com sinceridade profunda naqueles momentos do que na teoria da leviandade... Mas, mesmo assim... A minha Verinha tem razão, é preciso ter cuidado com as palavras. Muito cuidado.

A LEVIANDADE DE DIZER QUE TE AMO

É incrível como as pessoas que julgamos mais sensatas e responsáveis abrem a boca para dizer que nos amam com a maior leviandade. Como se nos tivessem dito “fecha a porta” ou “está frio hoje”. Como se nada. Não sei se esperam que no dia seguinte nos tenhamos esquecido disso. Ou no ano seguinte. Ou na década seguinte.

Ainda hoje fico perplexa com a leveza com que se usam certas palavras. Não me refiro à mentira propriamente dita. Quero acreditar que as coisas bonitas que me têm dito ao longo destes anos não eram mentira, pelo menos que não o eram naquele momento. Que quem as disse acreditava piamente estar a ser sincero. Mas duvido que fosse aquele realmente o sentimento que lhes ia na alma. Um pouco como quando eu prometi à minha mãe que não faria mais nenhuma tatuagem: não menti descaradamente, não a tencionava enganar, mas uma parte de mim não estava bem certa de conseguir cumprir. Resultado: mais um dragão na perna.

A afirmação - sempre forte e assertiva – de que se ama alguém é uma das que mais leviana se tornou e, por isso mesmo, mais vazia. É que amar não é o mesmo que gostar. Eu gosto de gelados e de bolas de Berlim. Não os amo porém. Não seria capaz de partilhar a minha vida com um corneto, muito menos de dar a vida por uma taça de creme de pasteleiro. Desconfio que a confusão entre gostar e amar se deva ao “I love you” que povoa a nossa linguagem desde que vimos na televisão o primeiro filme de Hollywood. A partir daí “lovamos” tudo, desde os nossos jeans preferidos até à Coca-Cola, passando por pais, amigos e namorados. Acontece que na língua portuguesa o amor é um sentimento que vai para além da preferência, do gosto ou mesmo da paixão.

Como trabalho com palavras tenho o maior dos cuidados no momento de as utilizar. São a minha arma, o modo como enfrento o mundo. Há quem cante (já aqui confessei ter sido eleita a pior cantora do planeta), quem desenhe (eu fico-me por uns rabiscos nas margens das folhas), quem corra (restrinjo essa hipótese à necessidade de chegar a tempo a uma loja prestes a fechar), quem dance (aqui faço o gosto ao pé… e ao rabo…. a bem dizer, a tudo), quem cozinhe (digamos que nunca conquistarei um homem pelo estômago). Pois bem, eu escrevo e falo. Estejam certos que quando utilizo uma palavra nunca o faço por acaso ou de forma irreflectida. Por isso me custa tanto compreender que se delas se faça um mau uso. Dizer que amamos alguém que conhecemos na semana passada é o mesmo que usar sapatilhas com o vestido preto cintado. Não conjuga. Posso até acreditar em amor à primeira vista, mas não é à segunda vista que se sabe que se ama. Apenas passadas muitas vistas nos apercebemos disso e eventualmente até concluímos que tudo sucedeu logo na primeira. Mas essa resposta chega bem mais tarde.

Tão-pouco funciona dizer em voz alta “amo-te” para nos persuadirmos disso. É que se pode querer com todos as células do corpo amar alguém, mas se o coração não bombeia para esse alto de pouco serve gritá-lo em voz bem alta. Só vamos conseguir fazer ruído. E, pior do que isso, não nos convenceremos a nós, mas convenceremos o outro de que assim é.

Por isso não digam nada. Remetam-se ao silêncio. Vão gostando. Vão estando. Vão curtindo a pessoa. Mas se um dia a amarem, aí, digam-no. Porque o pior que pode acontecer é ela nunca vir a saber disso.